Batman – Descanse em Paz Parte 5: O Pequeno Duque da Morte

[Parte 1: Meia-Noite na Casa da Dor] / [Parte 2: O Morcego no Submundo] / [Parte 3: Zur-En-Arrh!] / [Parte 4: Milagre no Beco do Crime]

batman-680-capaNo quinto e penúltimo capítulo de Batman – Descanse em Paz trudo muda. Mesmo. Há uma quantidade de referências à cultura pop nesta revista incrivelmente grande, mas ela é tão fácil de entender com o leitor conhecendo ou não estes detalhes. De qualquer forma, vamos comentá-los em nossa resenha, começando pelo próprio título deste capítulo: The Thin White Duke of Death, ou O Pequeno Duque da Morte, como ele foi chamado aqui no Brasil pela editora Panini.

Para quem não conhece muito de rock, ou mesmo do artista em questão, The Thin White Duke era uma das várias personas que o cantor David Bowie usou durante a década de 1970, mais especificamente em 1976. The Duke, como era popularmente chamado, era um personagem um pouco mais normal que as outras atuações do cantor sobre o palco, sempre extremamente elegante e com roupas no estilo de um cabaré. Entretanto, com o passar do tempo, o personagem tomou tanto conta dele que a coisa foi piorando cada vez mais, com extremas experimentações com drogas e ácidos alucinógenos, com ele, inclusive, aparecendo desta forma em público e para entrevistas.

Sempre impecavelmente vestido, The Duke era um homem solitário que sempre cantava músicas de romance com agonizante intensidade, mesmo sem sentir nada por ninguém, numa forma mascarada de gelo. A persona era descrita como um “louco aristocrata”, “um zumbi amoral” ou mesmo “um Superman ariano e sem nenhuma emoção”. Perceberam a semelhança dele com alguém aqui nesta história? Dr. Hurt é nosso querido Duque da Morte, sempre posicionando-se como um aristocrata misterioso, rico, poderoso e, ao mesmo tempo, diabólico, sem sentimentos e capaz de muitas amoralidades. Aliás, ele até se veste elegantemente como Bowie – ou como um demônio tentador, para alguns.

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Neste capítulo vemos o teste final da Luva Negra com o Batman de Zur-En-Arrh, e vemos também o autor colocando fechos a alguns pontos abertos desde o começo. Primeiro, o do próprio Dr. Hurt, como comentado acima. Segundo, da barganha da organização com o Coringa e, finalmente como eles se relacionaram. Basicamente, Luva Negra prometeu o Robin e o Batman ao vilão, contanto que ele seguisse as ordens deles e desse um show aos seus ricos convidados. Mais que isso, a relação de influência que o Príncipe Palhaço do Crime tem sobre os vilões do Clube é tão grande e inevitável quanto a do Batman sobre do Clube dos Heróis, mas a traição dele é também impossível de se parar: El Sombrero acaba morto, e Le Bossu fica desfigurado.

No aspecto do Bat-Mirim, fica claro que ele nunca passou de uma imagem fictícia da mente doentia do herói, sendo que ele representa a parte da razão, ou o “Anjo”, e Zur-En-Arrh é irracional, ou o “Demônio”. A mítica construída por Morrison com ele se assemelha muito com um aspecto muito visto no seriado Lost: o da desmitificação de forma simples de algo que parece ser um novo universo cheio de coisas jamais vistas. Sacada de mestre. E não para por aqui: o Batman conversa com ele como se falasse com outra pessoa, e ele alerta o herói: a partir do momento em que ele abrir aquela porta (a entrada para o Asilo) ele não poderá mais acompanhá-lo neste lugar de loucura. Vocês devem se lembrar da chamada da graphic novel Asilo Arkham de Morrison e Dave McKean: “uma casa séria num mundo sério”. Mas não é uma casa de razão… e o pequeno falante abandona o herói – permanentemente.

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O salão no qual o Batman está ao final da história tem muitos significados especiais. Primeiro, pela peça teatral protagonizada por estes dois grandes personagens da cultura pop. Segundo, o local fica num profundo subsolo do Arkham, simbolizando o profundo buraco negro em que nosso herói foi parar por conta desta “personalidade backup” de Zur-En-Arrh. Terceiro, e mais curioso, o salão formado por cores vermelho e preto parece-se muito com a sala vermelha em que o agente especial do FBI Dale Cooper (interpretado por Kyle MacLachlan), na investigação do assassinato de Laura Palmer, tinha seus contatos metafísicos durante os sonhos no seriado Twin Peaks. Isso é exatamente o que acontece neste momento da história, numa briga que extrapola os limites da realidade, com Bruce sem máscara confrontando um Coringa tão psicopata quanto realista, enquanto as rosas negras e vermelhas formam toxinas que acordam Jezebel Jet para o que ela realmente é: uma poderosíssima vilã. Aliás, quando Batman diz que está “indo pegá-la”, isso significa duas coisas completamente diferentes: 1-) ele está indo pegá-la para salvá-la; 2-) ele já sabe da ligação dela com os vilões e vai pegá-la no sentido de prendê-la.

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Os diálogos entre o Batman e o Coringa são muito curiosos, pois o vilão dá todas as dicas possíveis ao herói de quem está por trás de tudo ao cortar sua língua deixando-a como de uma serpente: o demônio (ou David Bowie se você preferir =D ). Mas ele não se importa com a parceria que fez com o Luva Negra, nem com o fato de que a identidade de Bruce está em sua frente, mas sim com o fato de que sua insanidade jamais poderá ser compreendida, não importando o quanto o herói tente experimentos e loucuras para entender a mente deste homem – e isso também levanta outro fator muito curioso, o do Coringa saber destes fatos da vida do Batman. Assim como o Comissário Gordon, é claro, o Coringa sempre soube quem o Batman era. Prova disso está há edições atrás, na história O Palhaço À Meia-Noite, em que o vilão comenta que o herói é um órfão.

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Por fim temos um incrível “Agora você entende?”. A alegoria do texto é maravilhosa, fazendo com que o Coringa questione o verdadeiro entendimento do Batman, enquanto o leitor pensa: “será que realmente vou entender toda esta loucura?”. Sim, é mais simples do que parece, como veremos no fim de tudo semana que vem.

Anotações e Referências

2-Os ricaços presentes aqui simbolizam a sujeira do mundo capitalista, bem como coloca-os no topo da sociedade “além do bem e do mal” como já falamos aqui muitas vezes. Por isso, não é nenhuma questão religiosa ou racial aqui, já que os convidados são formados por todo tipo de pessoa. Além disso, Hurt menciona que esses encontros são feitos uma vez por ano. Provavelmente, o do ano anterior, foi o de Mayhew.

4-E Le Bossu realmente é um neurocirurgião!

9-“E agora, soldado?”, uma referência clara ao Batman porra-louca de Frank Miller – que é o que Zur-En-Arrh simboliza de mutias formas.

10-Observem essa página dos Invisíveis #7:

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A referência aqui é da obra 120 Dias de Sodoma, do Marquẽs de Sade, e nesta página vemos um Duque, um Juíz, um Baqueiro e um Bispo. Eles estão aqui engajados a descobrir sobre a morte de um espírito nobre – que é o método da Luva Negra.

11-A inclusão de Robin aqui é perfeita: ele carrega as cores do jogo, bem como o Batman.

12-Essa é fora do sério: um telefone VERMELHO dentro da própria Mansão Wayne que faz contato direto com a polícia de Gotham? Se o Comissário Gordon ainda não sabe a identidade do Batman é muita sacanagem =D

14-“E você acabou vestido como um palhaço”. Aqui Morrison ironiza e inverte a situação da Piada Mortal, com o Batman enfrentando alto grau de psicopatia, totalmente descontrolado

16-17-Aqui pode-se levantar uma teoria de que Dr. Hurt poderia ser o filho perdido de Joe Chill mencionado anteriormente, mas ela não se sustenta. A revelação do Coringa aponta muito provavelmente para o demônio mesmo. De qualquer forma, isso se conecta à Detective Comics #235, já citada aqui, na qual Thomas Wayne veste a roupa do Batman, é caputado por Lew Moxon etc.

19-“e eu tenho a carta vencedora”. Já vimos isso antes, não?

21-A neurotoxina que vemos aqui, originada das rosas, já havia aparecido antes também na história O Palhaço À Meia-Noite, com a Arlequina a ativando – que, aliás, se veste de vermelho e preto.

22-Observem o relógio ali na parede, quase alcançando meia-noite, colocando em realidade a profecia da Arlequina. Quando a neurotoxina pega Bruce ele fica levemente desfigurado como o Coringa, numa situação humilhante, tornando-o o verdadeiro Palhaço À Meia-Noite.

Na verdade, os detalhes em volta da transformação de Bruce aqui e na próxima edição faz-nos lembrar de uma lendária figura… a Cinderela! Primeiro, Bruce recebe o convite para a festa, a Dança Macabra. Depois, ele arruma uma Fada para passar pela transformação, que é Honor Jackson, que o renova para enfrentar seus anfitriões (o Coringa, o Clube dos Vilões e Dr. Hurt). À meia-noite, o feitiço acaba e o Batman volta à sua forma original. O sapatinho de cristal fic apara a próxima edição :D

23-E a compreensão começa a se fazer clara…

24-Simbolicamente, Jet coloca as luvas negras em suas mãos, literalmente “vestindo o capuz”. Veremos mais sobre isso na próxima e última edição.

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