Batman – Descanse em Paz Parte 3: Zur-En-Arrh!

[Parte 1: Meia-Noite na Casa da Dor] / [Parte 2: O Morcego no Submundo]

batman-678-capaVamos conversar de um jeito pessoal. A lembrança que tenho da primeira vez que li este capítulo de Batman – Descanse em Paz, isso em meados de 2008, quando o Multiverso DC tinha poucos meses de vida, é o famoso “que porra é essa?!”. Fiquei tão encanado com “Zur-En-Arrh” que ficava escrevendo esta frase repetidas vezes no meu caderno de faculdade enquanto tentava entender onde diabos Grant Morrison queria chegar com isso. Foi então que comecei a pesquisar um pouco e unir os pontos malucos.

Para quem está lendo pela primeira vez, como fiz nesta época, a nebulosidade da narrativa pode ser tão grande a ponto de causar muitas desistências. Estamos falando de um conto que deve ser lido de uma vez só, ou no menor intervalo de tempo possível para que haja uma compreensão mais agradável e completa da quantidade de metatextos e símbolos inseridos na narrativa. Gosto muito de comparar Descanse em Paz com Pelo Amanhã do Superman (me chamem de herege quem não gosta desta história, saberei entender), de Brian Azzarello e Jim Lee, que coloca, pela primeira vez, o Homem de Aço numa narrativa metafísica e lotada de simbologias de vida, família, amor, heroísmo, bem, mal, tons de cinza e tantas outras coisas que podem envolver uma forma de literatura gráfica – é isso que acontece aqui, e vamos levantar alguns questionamentos extremamente importantes para o desenvolvimento desta história e como isso não mudou a vida de nosso heroi, mas sim trouxe à tona elementos de sua própria personalidade que sempre estiveram lá, mas nunca foram tocados.

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Vejam: a preparação de um homem que se submete a fazer o que Bruce Wayne faz é uma busca infinita pela perfeitação física e mental como poucos se dedicaram em nosso mundo real. O que fica claro nesta revista é que, no fundo, ele estava preparado para o dia em que o gatilho fosse puxado e Zur-En-Arrh viesse à tona. Por isso de tanta conspiração, informantes e roupas escondidas. Mais do que isso, o autor faz com que compreendamos a mente do protagonista quando ele discute com sua própria consciência, que ainda está ali na forma do Bat-Mirim – ele funciona como o elo do Batman com o mundo real, além de ser um instrumento de narrativa que nos conecta diretamente à história para a compreensão da armadilha armada pelo Dr. Hurt e pela própria saída que o heroi conseguiu ao imaginar que alguém pudesse fazer isso com ele. Como foi dito nos capítulos anteriores, “se houver a possibilidade de existir um inimigo maior que eu e imaginário, não seria ele real?”. Sim, ele é real.

Me lembro de estar ouvindo um RapaduraCast sobre Stanley Kubrick (ouçam, aliás, é mais que obrigatório!) no ano passado e, enquanto o pessoal discutia o filme 2001: Uma Odisseia no Espaço (de longe minha ficção científica favorita) eles falavam sobre o questionamento filosófico básico da película: será que o homem precisa saber e conhecer de tudo ao invés de simplesmente dar-se ao desconhecido do universo? Tomando o Batman como uma pessoa real, em um momento de sua vida, fez esse questionamento – e escolheu a primeira opção! Ele tem essa necessidade, mesmo que isso o coloque em situações de perigo sobre-humanas, como encontrar o próprio demônio. Ele vive em xeque com suas próprias crenças e dúvidas, que acreditava sempre princípios básicos que jamais mudariam – até aqui. Mas chega de filosofia barata e vamos ao que interessa.

Plot Principal

A parte 3 de Batman – Descanse em paz! O misterioso adversário do heroi venceu e tudo está perdido para o Cavaleiro das Trevas. Bruce Wayne está desorientado e sem rumo de vida, vagando pelos becos de Gotham City sem saber quem é. Será que existe uma chance para Bruce reconstruir sua identidade de Batman do zero?

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Nesta edição, vemos as consequências diretas da edição anterior, com Bruce Wayne sofrendo com o gatilho da palavra chave Zur-En-Arrh, que o deixou em estado catatônico, com ele depois acordando sem saber quem realmente é, mas tendo algumas de suas habilidades pela força do hábito. Do começo ao fim, a narrativa deste capítulo mostra uma jornada em busca de uma nova identidade – o renascimento, que tanto falamos aqui. Em meio a alucinações e momentos non-sense frutos de uma mente doentia (tanto a de Morrison como a do próprio Bruce), o heroi está em sua jornada buscando quem realmente é com as poucas lembranças que tem de sua vida anterior.

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Na duração desta jornada, o Dr. Hurt derruba todas as pessoas que estão em volta dele para impedir que qualquer alma possa relembrar Bruce de quem ele realmente é – mas não consegue impedir Tim, que foge de todos os asseclas de maquiavélico doutor e descobre mais sobre as profundezas da mente de seu mentor, fazendo algo que não tínhamos visto ninguém fazer até então: lendo os Arquivos Estranhos. Ele descobre muito sobre abduções alienígenas, monstros, o pai de Bruce usando o uniforme original do Batman e sobre o próprio Robin morrendo na experiência de isolamento dele anos atrás. Tudo isso refere diretamente às clássicas história da Era de Prata que vamos citar logo abaixo.

Análises, Anotações e Referências:

Algumas coisas desta edição lembram muito o clássicos livro de Charles Dickens, Christmas Carol (traduzido aqui como Um Cântico de Natal. Vale a pena da ruma lida no livro e reler a edição para pegar as semelhanças =D. Na página final, Morrison brinca com toda a narrativa com o “Eu sou o Batman!” de uma forma esquizofrênica, com o Bat-Mirim soltando um “uh-oh”, nos colocando no mundo real de novo e percebendo a antítese que é esta cena.

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Agora, vamos referenciar o rico passado do Batman. Lembram-se do uniforme do Morcego que temos falado desde o começo deste especial? O Dr. Hurt o veste como o líder de uma ópera, numa épica história que mostra a queda de um heroi anônimo pelas forças do mal mais puro, e vamos descobrir a origem disso. O uniforme veio da história A Origem do Batman, na qual Joe Chill é morto – e isto foi muito discutido no capítulo Joe Congela no Inferno.

Em Detective Comics #235, Thomas Wayne, num flashback, se torna um vigilante mascarado chamado Bat-Man! Para uma festa =D

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Entretanto, alguns ladrões o sequestraram da festa, a mando de Lex Moxon, o chefe da gangue (que, por sinal, lembra muito o futuro Carmine Falcone) e, curiosamente, o Sr. Wayne desce o cacete no cara, deixando preso por 10 anos =D

Então, um vingativo Moxon contrata Joe Chill para matar os Wayne. O resto vocês já sabem =). De volta ao presente, Bruce, doa a roupa de seu pai e blá blá blá. Moxon, ainda vivo, é pego pelo Batman Bruce Wayne no presente – e pela segunda vez o Batman marca a morte de seus pais como um caso fechado. Claro, esta história usa fórmulas conhecidas de narrativa, em que você acha que um cara cometeu o crime, mas na verdade ele foi mandado pelo outro e aquela coisa toda. Joe Chill foi contratado por Lex Moxon que, por sua vez, estava abaixo do Capuz Vermelho! Mas o Capuz Vermelho só ficou assim porque o mal tocou seu coração… mal que veio do Tinhoso! HAUIAHAI! E Morrison pega tudo isso e transforma, mais uma vez, em absurdismo.

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Interessante é que tudo isso se combina com a Luva Negra de alguma forma, principalmente porque é o que eles alegam ser: uma instituição de cultivo do mal mais puro. Basicamente, os autores estão brincando com a ideia básica de que, por trás de todas as mentes malignas, existe uma maior que toma conta de todas elas.

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Isso também se refere à coisa toda de pai e filho, passar o manto etc. Que é o que veremos acontecer nesta história no futuro, não é mesmo?

A segunda história referenciada aqui já foi comentada várias vezes no site: Batman – O Superman do Planeta X, de Batman 113, a famosa história do verdadeiro Batman de Zur-En-Arrh! Vocês podem ler a descrição desta história neste artigo.

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Verdade seja dita, o que importa destas histórias mesmo para o Batman de Morrison são os diálogos e não os acontecimentos em si. Como podemos ver, muitas linhas dos roteiros são reutilizadas em suas histórias. “Seria muito mais fácil considerar isso um sonho, mas como posso?”. Isso é que muitas editoras de quadrinhos vem fazendo conosco ao revolucionar seus personagens a cada 3 ou 5 anos, apagando elementos da cronologia na cara dura. Sim, isso é uma crítica do autor =D

É claro, aconselhamos, novamente, a leitura do artigo Nos anos 50 – Ficção, Rock e Alienígenas, que explica muito sobre essa época do Homem-Morcego que é referenciada loucamente nesta edição.

1-“O Bat-Rádio está ligado. As moléculas eletrônicas estão transmitindo. Seria mais fácil considerar tudo isso um sonho, mas como posso?” – de Batman 113.

O segundo painel vem de Batman 134.

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Verdade seja dita, é impossível sabermos se Bill Finger quis realmente brincar com metatextos aqui nesta história, mas ela é uma das mais fortes nesse sentido. Vejam a forma física de Batman e Robin na capa: eles realmente são pessoas bidimensionais, não é mesmo? E mais: eles derrotam o monstro tirando todas as cores dele, atraindo-o com o que parece ser um lápis gigante. Sinceramente, não me lembro de nenhuma outra referencia metalinguística dessa forma antes nos quadrinhos. Bacana, hein!

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O terceiro painel relembra mais uma história que já falamos muito aqui: O Robin Morrerá ao Amanhecer, cuja imagem já foi mostrada mais acima.

2-A frase de Bruce aqui confirma, mais uma vez, o fato de que ele se submeteu à experiências de isolamento do arco anterior para ter um melhor entendimento (?) da mente do Coringa.

Nesta página vemos algum personagem se alimentando de novo. No caso, Tim está comendo um saboroso “Canceritos. “Mas quando imagino como é ser como o Coringa, penso numa cobra com espinha quebrada se movimentando loucamente e agonizando pela areia – ele não sabe o que está fazendo.”. Escrevendo para Alfred =D

3-5-Que interessante, toda a batalha aqui é em silêncio absoluto. Por quê? Alguém tem alguma teoria?

7-Sim, Honor Jackson conheceu Bruce no primeiro capítulo de Descanse em Paz, e ganhou uma bela quantia de dinheiro do Cavaleiro das Trevas.

10-Soldados de Charlie Calígula.

13-A memória do Batman não se esvaiu por completo – ele se lembra de que é um exímio lutador e se defende dos psicopatas – que, por algum motivo, me lembram aqueles “Jokerz” do Batman do Futuro.

14-“Você tem um cara boa.” Honor Jackson pensou nisso mesmo quando Batman estava de capuz no primeiro capítulo da saga. Notem as roupas xadrez vermelhas e pretas =D

15-Jackson entrega ao Batman o sagrado Bat-Rádio – percebem a semelhança dele com a Caixa Materna? Como o dispositivo criado por Jack Kirby, o Bat-Rádio vem equipado com um botão “emergencial”, que veremos o Batman apertar no futuro próximo.

Você pode cair… ou pode levantar”. A queda é o mote desta série. Já comentamos a queda e renascimento de Bruce Wayne aqui desde o começo desta análise, bem como o nosso amigo Luis Alberto fez com seu especial Zur-En-Arrh. Do começo até a edição anterior, vimos a queda absoluta de Bruce até se afundar nos medos de sua própria mente e ceder à uma frase pré-programada pelo, até agora, mais perigoso de seus inimigos: o Dr. Hurt! Nesta edição vemos o primeiro renascimento, na forma do Batman de Zur-En-Arrh, fechando um parte do grande ciclo que culminará no final de Descanse em Paz.

16-18-Aqui temos algo muito espiritual – Jackson já estava morto, mas seu fantasma continuou em torno de Bruce para cumprir seu objetivo. Como vimos, Jackson cumpre coisas honrosas, e enquanto não ajudasse Bruce, sua função na Terra não estaria terminada.

17-Será que o prédio que vemos no quarto painel desta página é o local do qual Bruce e seus pais saíram quando foram parados por Joe Chill?

18-É legal perceber como os funcionários do Arkham são completos idiotas. Le Bossu os convence de que Asa Noturna, que está babando como um doido varrido, é, na verdade, Pierrot Lunaire, o doido que quase pegou Tim numa armadilha no começo desta edição. Provavelmente, o artifício de Le Bossu foi a máscara, já que ela não é, necessariamente, uma marca do heroi.

20-Todo mundo aqui já deve ter lido o Asilo Arkham de Grant Morrison e Dave McKean, certo? Pois bem. Há um momento muito importante ali (o meu favorito) em que o Batman finca um pedaço de vidro em suas mãos na esperança de conseguir sentir alguma coisa em meio a tanta frieza. Curiosamente, esta cena, originalmente, era pra ser exatamente o que se vê aqui: o Batman espetando um dedo, que, quando McKean pegou, ele transformou-a numa cataclísmica cena de auto-mutilação. Interessante, já que mesmo doido, o Batman não perdeu certas lembranças e rituais.

22-A cena do renascimento é a marca máxima da série – a partir de agora, estamos diante de um novo Batman que, até então, vivia apenas no subconsciente de Bruce Wayne – e não tem limites! Porém, isso precisa ser dito: a desproporcionalidade do desenho de Tony Daniel mata a cena. Uma pena.

Não dava pra esperar que este capítulo seria tão longo e tão cheio de coisas importantes para um mitologia quase secular (faltam apenas 30 anos!) de um personagem. Se a série é rápida de ser lida – são apenas 6 edições com roteiros relativamente enxutos – ela demora tempos e tempos para ser compreendida em sua (quase) totalidade. E é isso que dá o tom de graça e lembrança para uma narrativa.

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