Batman – Descanse em Paz: Meia-Noite na Casa da Dor

Voltando à nossa programação normal aqui no Multiverso DC, é hora de falarmos da grande saga envolvendo o Batman que começou em julho aqui no Brasil, e está chegando ao fim: Descanse em Paz! Para quem acompanha o site, sabe que fizemos uma gigante retrospectiva de tudo que aconteceu na vida do Homem-Morcego desde que Grant Morrison, e seus comparsas de alto calibre Andy Kubert, Jon Van Fleet, JH Williams III e Tony Daniel trabalharam num grande sincronismo para construir o maior desafio da carreira do personagem.

Portanto, é com muito orgulho que vamos analisar o primeiro capítulo de Batman – Descanse em Paz a partir de agora, citando suas referências, explicando a história e filosofando um pouquinho sobre o que vai acontecer a partir deste ponto.

Vamos entender um pouco sobre o aspecto artístico de uma história em quadrinhos, que permite ao autor desenvolver se, claro, ele souber e mesmo quiser aproveitar bem esse conceito. Imaginem uma peça de teatro clássico, com movimento, narrativa, música, drama, clímax e encerramento, além das várias outras subestruturas artísticas que fogem um pouco do conhecimento deste redator =D. Em Batman Begins, o diretor Christopher Nolan inseriu o conceito da teatralidade que era usado pelos artistas de quadrinhos de forma consciente ou inconsciente, com a coisa do herói se esconder nas sombras e fazer grandes entradas que deixam todos assustados – algo desse tipo até acontece no Batman de Tim Burton, quando o cruzado de capa adentra o museu através do teto de vidro com a capa bem aberta. Outros dois detalhes que corroboram muito para a origem teatral do herói é: a) seu parceiro mirim, descendente de trapezistas de circo e que usou, por anos, um uniforme totalmente circense e colorido; b) o Coringa, palhaço do crime que novamente leva a coisa do circo, do medo causado pela sua imagem e também da apresentação solo teatral, afinal, bons palhaços são grandes improvisadores!

Fora esse aspecto visual, imaginem a vida do Batman como um grande roteiro de teatro, encenado por ele com um enredo pré-determinado por suas próprias ações, e partilhado e por todas as pessoas que estão á sua volta e, ou o controlam, ou são afetadas pelas decisões dele de alguma forma. Temos o mordomo Alfred, mestre de cerimônias que apenas acompanha os astros principais e os números menores. Agora, estamos do outro lado, onde o mestre de cerimônias é Dr. Hurt, um misterioso homem tão poderoso e maleficamente persuasivo quanto o próprio Satanás, que quer apresentar o maior show da Terra lançando um desafio perfeito para a mente perfeita.

Quando o Batman aparece de capas abertas na segunda página dupla do primeiro capítulo de Batman & Filho, vemos as cortinas da peça se abrindo e o show começando e se desenrolando em todas as edições seguintes, até chegarmos ao momento mais importante e emocionante: o clímax. E é disso que trata Descanse em Paz. Prontos para o show?

A História

Apesar da quantidade grande de referências que esta edição possui, sua única função é montar o palco para o que veremos a seguir. Temos o primeiro encontro oficial de Bruce e Jezebel às abertas, já que ela agora sabe quem ele realmente é. E isso leva Robin a conversar com Alfred sobre a sanidade mental de seu mentor, o que vira a narrativa toda para o leitor: imagine você conversando com um amigo seu sobre o Batman, caso ele existisse na vida real. Não seria ele uma pessoa completamente louca e perturbada? Esse questionamento é fundamental para o entendimento dos próximos capítulos e coloca Bruce Wayne numa berlinda moral que merece questionamento de qualquer outro personagem do UDC, principalmente dos que convivem com ele diariamente.

Uma pessoa que dedica sua vida à um juramento da forma que ele faz definitivamente não pode ser normal, e isso foi questionado até pelo próprio Coringa na Piada Mortal de Alan Moore.

Os acontecimentos mais importantes deste capítulo são:

  • a apresentação dos vilões na casa do Dr. Hurt, que são réplicas exatas do Coringa, cada um à sua forma e maneira de agir. Mais abaixo, nas referências, explicaremos cada um deles, mas fica claro que o desejo dos autores aqui era brincar com os avatares que Batman e Coringa simbolizam para a cultura pop, e como outras pessoas queriam ser como elas – O Clube dos Heróis e, agora, o Clube dos Vilões;

  • o Coringa ter aceitado o convite da Luva Negra para a Dança Macabra, que brindará ao maior desafio e, claro, à morte do Cruzado de Capa;

Referências e Análises

1-Esta página se encaixa num momento perdido no futuro. Ah, sim, pra quem ainda tinha dúvidas do momento exato em que as histórias se encaixam cronologicamente, o céu vermelho indica que a DC ainda está modo Crise Final. Mais à frente vamos explicar isso melhor para quem ficou confuso.

2-3-“Seis meses atrás“. Morrison e Daniel pagam de Victor Hugo aqui com todo o aspecto francês descritos visualmente nestas cenas, inclusive homenageando um dos personagens mais famosos daquela terra, o Corcunda de Notre Dame, com Le Bossu – que, literalmente, se traduz como “o corcunda”.

4-5-Vamos conhecer o Clube dos Vilões um a um?

Rei Kraken, seguindo a lenda norueguesa, esconde sua face num elmo usado anteriormente como equipamento de mergulho. O que quer que tenha feito isso com ele, também o deixou pirado, tornando-o o arqui-inimigo do Alado.

Charlie Calígula, cujo nome vem do psicótico imperador romano, sofre de demência e faz com que todos os seus crimes tenham como tema a Roma Antiga. Ele não deixa de ser um coitado, que quer apenas ser como o Coringa, mas não é ninguém – essencialmente, um impostor do Palhaço, bem como o Legionário é do Batman.

El Sombrero, espanhol para “o chapéu”, ironicamente um item que ele normalmente não usa, trabalha como arquiteto e construtor de complexas e artísticas armadilhas para vilões menos criativos (será que isso é uma sacanagem com a colonização espanhola em países menores da América do Sul séculos atrás?). Percebam que esta é a primeira vez que o vemos de verdade, já que no arco do Clube dos Heróis ele era John Mayhew disfarçado, confundindo até seu nêmesis, El Gaúcho.

Pierrot Lunaire, francês para “moonstruck mime”, tem conhecimento de várias artes marciais, sendo inclusive capaz de levitar seu corpo no ar. A lágrima pintada em seu rosto segue a tradição francesa dos “pierrots”, brincando com a coisa do palhaço triste, além de jeito “morrisiniano” de belos toques na cabeça dos fãs. O Mosqueteiro alega ter enfrentado-o tempos atrás.

Escorpiana é, infelizmente, a mais fraca deste grupo, o que podia ter sido melhor cuidado por Morrison quando foi criar estes vilões. No passado, assim como El Sombrero, ela lutou contra o Gaúcho.

Swagman (realmente não consegui a tradução deste nome), vem do protagonista de uma música popular australiana chamada Waltzing Matilda. Ele já enfrentou o Ranger, é claro.

6-O Abutre Verde cai bem aqui. Com tantos Bat-xerox que nós vimos nas últimas edições, era de se esperar que fossem surgir clones do nêmesis dele também. Assim como Charlie Calígula, este vilão é mais uma “mulher de malandro” do que um gênio louco.

8-10-As cores da nova obsessão de Bruce Wayne colorizam o novo Batmóvel. São os dedos da Luva Negra percorrendo a vida do Homem-Morcego (e essa frase ficou extremamente gay), o assustando em seus próprios pensamentos. “Não era como eu tinha imaginado”, ele diz. Da última vez que ouvimos falar do carro, tinha sido no primeiro arco, quando ele ainda estava em construção na caverna, mas parecia ser todo azul. Agora, o carro está mais ao gosto do Dr. Hurt.

11-Prestem muita atenção neste mendigo, pois o veremos em breve. (Spoilers no Brasil, marque para ler) ele é o “magical negro” de Bruce. O conceito do “magical negro” é usado em ficções como uma idéia um tanto racista, em que o personagem negro ajuda o protagonista branco a sair das confusões. Morrison usa isso aqui para brincar com esses arquétipos racistas que existem aos montes em histórias americanas, que, infelizmente, ainda têm muitas culturas preconceituosas.

13-St. Cloud é Silver St. Cloud, a gatinha que descobriu a identidade secreta do Batman na curta mas ótima passagem de Steve Englehart pelo título do Morcego nos anos 1970. Bordeaux é, claro, Sasha Bordeaux, uma guarda-costas de Bruce Wayne que desistiu dele por suas estranhas ausências, mas descobrindo a verdadeira identidade dele mais tarde.

16-O motivo das perguntas de Jezebel não fica muito claro aqui. Provocativas, talvez? Ah, claro, o Batman não as responde =D

20-Desde Watchmen (ou será que isso veio antes? Alguém tem essa informação?) os testes de rorschach aparecem normalmente nos quadrinhos. Esta cena é muito bem narrada por uma série de motivos, mas muito mal narrada por uma série de outros motivos.

Os bons: a fantasia do Coringa é exatamente o tipo de psicopatia que nós, leitores, gostaríamos muito de ver, e aqui ela é bem surreal, dando-nos momentos reais de como a mente doentia desta peculiar figura funciona;

Os maus: Na verdade é apenas um, mas é ele que mela a cena toda. Esse negócio do sangue pode ter caído bem se analisarmos pelo lado psicopata, mas não pelo lado real da cena. O Coringa não matou ninguém ali, é apenas uma imaginação. Mas, ao virarmos a página, com o fundo real (a parede da cela dele), o homem está todo melecado de sangue na cara. Caquinha das brabas. Morrison pediu desculpas aos fãs e lamentou o erro numa entrevista ao site IGN ano passado, mas a DC não corrigiu isso na versão encadernada, repetindo o equívoco.

22-Essa coisa das flores remete à história O Palhaço à Meia-Noite, na qual vemos que flores são responsáveis por muitas das carnificinas de sua última aparição.

Sejam bem-vindos à Casa da Dor!

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