Resenha (filosófica) de Crise Final nº #3

crise-final-3-capa[A resenha da terceira edição da grande saga da DC Comics sendo publicada no Brasil atualmente demorou um bocado para sair, devido aos atrasos no lançamento da revista em todo o território nacional]

Pouca gente sabe, mas a morte não é mais rápida que a luz”. – Jay Garrick

Eu, Mokkari, em nome de Darkseid… dou fim ao mundo.” – Mokkari

Uma das coisas mais divertidas na terceira edição de Crise Final é a velocidade com que os acontecimentos tomam parte da narrativa. Da primeira até a ultima página da revista passam-se semanas dentro da história, o que mostra o quanto os maiores heróis do Universo DC jamais estiveram preparados pra uma intervenção deste calibre vinda do mais poderoso vilão conhecido. Toda a história tem cortes de cenas bem dinamicos mostrando alguns acontecimentos extremamente velozes que continuam a edição anterior desta saga. Dentre os pontos mais importantes está o movimento da convocação, ou “O Chamado”, que é quando os heróis tomam parte do desafio para que foram criados. Esse grande desafio é a tomada absoluta de Darkseid sobre a humanidade de forma rápida e exponencial: utilizando todas a mídias de massa como a TV e, principalmente, a internet.

O timing do plano é perfeito: a partir do momento que a ordem é dada pelo mestre do mal na edição anterior, Mokkari lá da Fábrica do Mal prepara o lançamento da Equação Anti-Vida por toda a rede, mundial; o Libra começa a angariar os Justificadores para seu lado e coloca o grande inimigo de toda a DC, Lex Luthor, em xeque; os dois maiores heróis do UDC estão caídos. Chegou a hora! O mundo está sendo tomado por completo e ninguém consegue impedir a iminente chegada do Messias da Malevolência.

Contra tudo isso, há os primeiros sinais de que coisas boas podem surgir a partir de agora, pois existem pequenos focos de resistência espalhados pelo mundo. O primeiro sinal vem do Japão, quando Sonny Sumo e o Sr. Milagre finalmente se unem à Equipe Super-Jovem, ou seja: O Povo do Amanhã está completo, e eles não vão deixar isso barato. Nos EUA, Oráculo é eleita o elo comunicador entre todos os seres ainda não atingidos pela anti-vida e, junto ao Sr. Incrível, ela deve se comunicar com mais pessoas poderosas. Vemos aí o primeiro Aquaman verdadeiro em anos (provavelmente desde que acabou a Crise Infinita), mas, como a própria Barbara definiu, ele ainda é um grande mistério. Somado a todos eles está a S.O.M.B.R.A, agência filiada ao Xeque-Mate e que é respondida pelo Pai Tempo, cujo principal agente é Frankenstein em pessoa.

O grande clímax da edição vem no momento em que Oráculo percebe o tamanho da complexidade do plano maligno cuja ignição foi dada. Por mais ágil que seja, ela não consegue impedir a equação de se espalhar e solta um “Precisamos desligar a internet!”. Nós sabemos que isso é praticamente impossível, mas não deixa de ser emocionante =D. A história só vai parar quando os Flashes dão uma freada no final para conversarem, o que também é poético: o ritmo frenético da narrativa só pode parar quando os velocistas também pararem.

Antes de falarmos da Mulher-Maravilha, vamos falar de Mary Marvel. A simbologia da juventude feminina corrompida (que será focada mais abaixo) é perfeitamente cabível aqui, e o autor aproveita também para, através da personagem, ditar alguns conhecimentos básicos que servem de dicas para as primeiras explicações reais da série. Quando ela ataca a Mulher-Maravilha, ela diz que os Novos Deuses haviam tomado os corpos dos humanos. Nós sabíamos disso muito bem, mas para os personagens isso tem sido um grande segredo – até agora. O que ela aplica na Prince Amazona acaba na consequência que será comentada logo no próximo parágrafo.

Há um ponto muito particular desta edição que, para este que vos escreve, é o verdadeiro grande movimento da narrativa até agora: o que aconteceu com a Princesa Diana? O corrompimento definitivo da Mulher-Maravilha faz alusão a uma série de conhecimentos, inclusive de ordem Bíblica. Décadas atrás, na época em que os Superamigos era o que se tinha de grande desenho de heróis na TV, o vilão Darkseid chegou a dar as caras por lá com um intuito bem engraçado e nivelado ao restante das histórias do desenho animado: casar-se com a Mulher-Maravilha! É claro que isto serviu de fonte na história desta edição para brincar com o conceito do bandido mongolóide que quer a mocinha bonita pra ele, mas não é só isso. Darkseid pode ser compreendido de muitas formas mitológicas, inclusive Lucifer, o Anjo Caído do reino de Deus que foi corrompido pelo poder que possuía a ponto de querer tomar o Paraíso para si. A Mulher-Maravilha, por sua vez, reune outros conceitos: ela foi criada do barro por deuses mitológicos gregos que, em sua cultura e crença, continuem vivos e observando a Terra. Ter Darkseid corrompendo-a é um signo da tomada Cristã, a crença definitiva que apagará os pagãos da Terra e os colocará ao seu lado. Isso sem falar do lado feminista – a violação da pureza da mulher pelo mal em forma de carne.

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Este conceito feminista pode ser muito bem levado à sério ao vermos a ultima página desta edição, na qual vemos a heroína amazona liderando a nova trupe do mal: a nova encarnação das Furias Femininas, em que estão Giganta, Batwoman e Mulher-Gato.

Vamos analisar o saldo final da revista?

-Darkseid agora tem um exército definitivo, com Justificadores, Furias Femininas e tudo mais

-Um de seus asseclas, Mokkari, liberou o vírus que espalhará a Equação Anti-Vida para a humanidade a toque de caixa, colocando seu mestre como deus supremo de cada ser vivo no planeta

-Os Lanternas Verdes agora são os unicos que podem se movimentar para dentro e fora do planeta. A Terra, literalmente, está trancada de qualquer intervenção

-A Fábrica do Mal mostra seus primeiros frutos: Mary Marvel e, mais ao final, as Furias

Superman continua fragilizado e fora de ação pelo que aconteceu a Lois – segundo Lex, há horas ele não atende nenhuma chamada de emergência. Mas sua vida deve mudar com o aparecimento da Monitora

-O desaparecimento do Batman coloca a unica restante da Trindade, Mulher-Maravilha, em ação direta como não vemos há um bom tempo

-Libra coloca seu plano em ação: converter cada ser próximo de si em Justificadores, os soldados do mal que espalharão a palavra da Bíblia do Crime para todas as pessoas que não forem tomadas pela primeira investida da Equação Anti-Vida

-Continuando também a edição anterior, os heróis japoneses finalmente assumem seu título de Equipe Super-Jovem e prometem ser a semente da revolução que pode derrubar todo o plano maligno

-E falando em revolução, numa época em que os Lanternas Verdes se tornaram extremamente populares, não seria justo que o mais velho deles, Alan Scott, liderasse os maiores heróis da Terra numa tentativa de impedir a tomada absoluta da Terra?

-O estopim da Crise é descoberto pelos Flashes: percebam que quando eles estão viajando pelo tempo, eles presenciam Dan Turpin encontrando o corpo de Orion, o Corredor Negro buscando os mortos e, principalmente, a bala. Entretanto, nada pode ser mudado pois já está feito – algo que vimos muito acontecer nesta última temporada do seriado Lost.

Referências e Anotações:

1-Não é de hoje que o personagem Frankenstein faz parte do Universo DC – mesmo com a leitura dele em Sete Soldados da Vitória, ele sempre rondou o UDC desde 1948, ao aparecer em Detective Comics #135.

1-2-O corpo deixado mumificado é claro: Darkseid está em seu novo corpo se recuperando em um outro local, ainda secreto. Reneé Montoya dá a dica do que aconteceu com Dan Turpin.

3-A mão escrevendo é uma clara referência à santidade da Fonte, que pode ser vista nos Novos Deuses de Jack Kirby, mas com um formato mais digital. Ela também remete ao cursor de quatro dimensões visto em Invisíveis, que pode arrastar uma pessoa pelo tempo.

3-Taleb Beni Khalid é o Rei Negro do Cheque-mate, criado por Greg Rucka e Jesus Saiz em 2006, e mostra mais uma vez o autor Grant Morrison utilizando algo que Rucka fez (como aconteceu em 52 com a Batwoman. Ambos trabalham muito bem juntos.

3-Para os bons observadores, Taleb faz uma piadinha no melhor estilo “Aventureiros da Arca Perdida”. Outro detalhe que também está nesta página é o envolvimento da Questão com a S.O.M.B.R.A., o que dá uma dica de um protótipo da Agência Global de Paz, criada por Jack Kirby em sua série OMAC.

4-A Nazi Supergirl aqui está morrendo pela forma simbólica de uma brincadeira com a Crise clássica, em que a Supergirl morre nos braços do Superman. Outro detalhe interessante está em suas falas, uma nova referência à Sangria, criada por Warren Ellis em Authority e já utilizada nesta série.

5-Para quem não se lembra, Calvin “Cave” Carson era um dos membros dos Heróis Esquecidos (veja mais sobre eles aqui) e a arte da caverna encontrada por ele tem o design de Metron, além de parecer-se com as escalas da justiça.

8-9-É uma referência ao efeito Doppler, além, é claro, de ser uma alusão ao esquema de vermelho e preto que já estamos vendo acontecer bastante com o Batman há alguns meses.

10-O elmo que vemos aqui também não é uma invenção do autor. Ele foi usado, primeiramente, pelos Justificadores do Glorioso Godfrey em Forever People #3, escrita e desenhada pelo Rei Kirby. Ah sim, um dos guarda-costas de Lex Luthor é Mercy Graves, criada por Paul Dini e Bruce Timm na série animada do Superman, e que apareceu pela primeira vez nos quadrinhos na revista da Mulher-Gato.

10-Curiosidade: todo mundo sabe que Mark Millar e Morrison são grandes amigos, correto? Eles inclusive trabalharam juntos em Vampirella, Flash, Aztek e outros títulos para várias editoras. Portanto, sim, o sobrenome “Millar” foi dado ao Flama Humana de sacanagem com o amigo. Humor escocês =D

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11-“Julgue os outros! Escravize os outros! Mate os outros! A Anti-Vida lhe dá este direito!”. Isso veio diretamente de Forever People #3, de 1971, e é bem semelhante ao que o Flama Humana diz.

12-Aqui fica claro que Jimmy Olsen não sabe que Clark é o Superman. O que acontece em Contagem Regressiva foi simplesmente jogado pra debaixo do tapete pelo autor, o que, levando-se em consideração a (falta de) qualidade da série semanal, foi muito bem colocado.

14-Os Celestiais foram criados por Jack Kirby na primeira edição dos Eternos para a Marv.. epa, peraí! =D

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16-Tigre Tony! Malhado foi criado por Otto Binder nos idos da Era de Prata. A coisa do “chá” vem, provavelmente, do fato de “tea” ser também uma gíria para maconha. Na década de 30 havia uma tirinha chamada Krazy Kat in Tiger Tea, que contava a historinha de um tigre que ficava poderoso e maluco com esse suposto chá. Ah sim, o criador dele também consumia muito “tea”, se é que vocês me entendem…

17-Oh sim, a Supergirl já teve uma quantidade inigualável de versões. Talvez só o Gavião Negro passou por esta festa toda também. Morrison mencionou que sua visão favorita da jovem heroína foi tirada de Bizarro Comics, mais especificamente a vista na história “The Clubhouse of Solitude”. E falando nela, o gatinho Raiado já é antigo companheiro do autor, que o utilizou em sua ante-penúltima edição de Homem-Animal.

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18-Que galera! Vocês reconhecem todo mundo? =D

19-“Eu saí do meu próprio tumulo” – Isso aconteceu em Sete Soldados da Vitória: Sr. Milagre

21-The Wonder Wagon! Numa versão bem mais atual que a criada por Jack Kirby nos idos de 1971. Alguém confirma o nome em português do veículo?

24-A Mulher-Maravilha realmente viu homens virados do avesso, mais exatamente em Wonder Woman #247.

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28-Se isso não faz de Mokkari o rei dos spams, não sei o que é! Aliás, imagino aquele tipo de spam corriqueiro… “aumente seu pênis com a Anti-Vida!” HIAHAUIAHIAU

29-Esta cena assemelha-se muito com alguns momentos da Crise nas Infinitas Terras, com Barry correndo e freando sua viagem pelo tempo até se perguntar o que estava acontecendo com os mundos.

30-A nave lá no céu assemelha-se muito à utilizada por Darkseid na saga Pedra da Eternidade da Liga da Justiça, também escrita por Morrison e com arte de Howard Porter, publicada pela editora Abril em 1998 na revista mensal Os Melhores do Mundo. Sobre as Quatro Amazonas do Apocalipse, vamos ver quem elas representam?

-Mulher-Maravilha = Bernadeth

-Batwoman = Mad Harriet

-Mulher-Gato = Lashina

-Giganta = Stompa

E assim fechamos mais um capítulo da saga. Pela ordem natural de leitura, que foi até sugerida pelo próprio autor, as próximas edições seriam Superman Beyond #1 e #2 e Submit. Vamos ver como ficará a publicação nacional deste material. Espera-se que tudo isso saia nas próximas edições de Crise Final Especial.

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