[BR] Resenha (filosófica) de Crise Final nº 2

cf2-capaNós já ganhamos e eles nem perceberam.” – Reverendo Good

Sinopse: Enquanto todos ainda lamentam a morte de J’onn J’onnz, o Caçador de Marte, começam as investigações sobre a morte de Órion. Os Guardiões do Universo convocam os Lanternas Alfas para a missão, mas esses seres tão poderosos não são lá muito amigáveis… e logo as suspeitas sobre a identidade do assassino vão recair sobre uma pessoa que ninguém esperava. E ainda: perigo no Planeta Diário! Danny Turpin e sua cruzada brutal! Super-heróis japoneses! E a última página mais surpreendente do ano! (É sério!)
(Final Crisis 2)
Edição especial, formato americano, 36 páginas, papel LWC, capa couché, R$ 5,50, distribuição nacional

Pela primeira vez somos apresentados a um outro cenário de Crise Final, o Japão. Grant Morrison e seu parceiro J.G. Jones brincam bastante com as caricaturas e esteriótipos orientais logo nas primeiras páginas desta edição, mostrando pessoas comuns fantasiadas de recortes de vários uniformes de heróis americanos, mostrando que os japoneses absorvem a cultura mundial e a incorporam na sua à sua maneira, algo que acontece até hoje no mundo real, ainda mais com a ascensão da globalização cultural das últimas décadas.

O cenário e uma boate de aspirantes a heróis e pessoas fantasiadas de heróis, e lá temos contato pela primeira vez com personagens que ainda terão muita importância no Universo DC, uma jovem equipe de heróis que pretendem mostrar ao mundo do que são capazes. Lá dentro eles assistiam ao noticiário local mostrando o herói máximo do país, o Sol Nascente, criticando a nova geração de heróis japoneses que não passam de produtos de marketing, enquanto a TV mostra cenas dele combatendo grandes monstros invadindo Tóquio – uma nova brincadeira do autor com os seriados japoneses que foram febre nos anos 70/80, com heróis combatendo monstros que queriam, a todo custo, por fim a vida na capital japonesa.

Aqui vemos outro antigo personagem de Jack Kirby ser resgatado por Morrison: Sony Sumô, que havia aparecido numa historia do Povo do Amanhã na década de 70 e sofreu as consequências da Sanção Ômega de Darkseid numa batalha contra Desaad, indo parar no Japão Feudal. Morrison o resgatou para que ele pudesse ser a centelha dos novos heróis japoneses e, após acabar com um maníaco que tenta enfrentá-lo dentro da boate, um novo convidado de honra adentra às portas do local – o novo Sr. Milagre, Shilo Norman! Com uma Caixxxa Materna em mãos, ele chega ao banheiro onde Sonny está em frente ao espelho aguardando seu corpo curá-lo dos ferimentos da batalha que acabara de ocorrer, e logo se vê absolutamente curado, como se os ferimentos nem tivessem aparecido. Ele reconhece o barulho da Caixxxa, mas não se lembra de onde ela é (clara referência ao aparecimento dele de mais de 3 décadas atrás), e Shilo Norman lhe fala: “Houve uma guerra no céu, e as forças do mal venceram. Isso foi a única coisa que sobrou”, e então se inicia a formação de uma nova equipe.

Todos os três parágrafos acima foram narrados aqui para que ficasse claro que, do outro lado do mundo, começou-se a formação de uma nova equipe de super-heróis que iria substituir O Povo do Amanhã, continuando a reencarnação dos Novos Deuses em novos corpos ou identidades. Na verdade, no caso deles, não se trata de uma reencarnação, mas sim de um novo grupo que levantará a bandeira destes velhos heróis do Quarto Mundo aqui na Terra.

Nix Uotan está à procura a palavra mágica que pode lhe fazer voltar a ser quem era de verdade (fazendo uma divertida referência à clássica lanchonete do Tio Pança) e essa parte é muito interessante pois mostra que o Monitor tem o potencial para um papel muito significativo na trama, além de seus desenhos mostrarem alguns personagens que serão bem familiares nas próximas edições, numa parte em que autor e desenhista brincam com os leitores mostrando seus sketches do futuro próximo. O detetive Danny Turpin continua sua busca pelas crianças, que foram levadas a algum lugar misterioso após sua investida no Clube Lado Negro. Espancando o Chapeleiro Louco quase ate a morte, ele obtém a resposta (Blüdhaven), mas começa a indagar o que está acontecendo consigo, já que se tornou um bruto extremamente violento – o processo de dominação de Darkseid sobre seu corpo começou, como é possível ver em suas feições, que começam a mudar também. Com essa retomada, o autor deixa claro a todos os leitores que o mal está prevalecendo no Universo DC, como ficará mais claro nas páginas seguintes.

Libra continua sua manipulação sobre os vilões do Universo DC, que passam a respeitá-lo muito mais com o assassinato do Caçador de Marte, mas Lex Luthor ainda reluta, e diz que só vai acreditar nele quando o Superman for atingido. Em seguida, o vilão começa a escalar um grupo novamente para que possam combater Libra e seus supostos líderes malignos, enquanto o Flama Humana promete ao Arauto do Mal que fará tudo que ele lhe pedir, agora que ele foi vingado – e essa era a deixa que Libra precisava para colocar o plano de Darkseid, seu líder, em andamento na Terra.

As próximas páginas são as que realmente vão definir a importância desta segunda edição da minissérie. O primeiro ponto relevante é a investigação do Lanterna Verde John Stewart na cena do crime onde o corpo de Órion foi encontrado – ele descobre que o novo deus levou um tiro de uma bala diferenciada, mas que estranhamente está presa ali no chão há 50 anos. Como uma bala de 50 anos de idade poderia matar um novo deus que caiu ali há poucos dias? Antes que pudesse obter a resposta, um Lanterna Alfa o pega com todas as forças e seu anel pára de funcionar repentinamente, e sua última mensagem a John foi: “Cautela! Traços de material Teotóxico não identificado. Radion, emergência!”. Esse lapso temporal é muito importante e será crucial para o desenrolar da trama nas próximas edições.

O segundo ponto relevante, que aconteceu pouco antes aos eventos do parágrafo anterior, a Trindade está reunida junto ao Flash Wally West para debater sobre os últimos acontecimentos e como uma possível crise vem se aproximando com força extrema. Hal Jordan chega ao local acompanhado da Lanterna Alfa Kraken, sua superiora na Tropa dos Lanternas Verdes e que está lá para investigar morte de Órion. Batman chega à conclusão que o novo deus foi baleado por algo muito poderoso, mas Kraken pouco se importa com as conclusões do herói e pretende relatar o que conseguiu obter ali aos Guardiões. O comportamento dela soa bem estranho, mas a dica será dada em breve.

Naquela noite, os Lanternas Alfa invadem a casa de Hal Jordan e o prendem acusado de ter matado Órion, e seu anel deixa de funcionar também antes que possa se defender. Neste ponto, ficaria muito fácil acusar Morrison de estar enlouquecendo com sua narrativa, já que há muita coisa acontecendo e muitos cortes de cena nas páginas, mas com um pouco de atenção é fácil perceber o plano geral: ele quer que todos percebam que, como diziam as propagandas do evento, “O Mal Venceu”, e isso é verdade. Os Lanternas são desabilitados; o Batman é atacado no dia seguinte por Kraken, que o deixa indefeso e de joelhos falando: “Entre no Tubo de Explosão agora. Mais um brinquedinho para a Vovó” – fica claro que Kraken está tomada pela Vovó Bondade, que judiava das crianças em Apokolips para que elas se tornassem soldados de Darkseid. Superman vê todo o Planeta Diário ser destruído e Lois Lane fica no limite da vida e da morte (obviamente isso foi um plano de Libra para provar a Luthor o quanto ele tem poder).

Danny Turpin chega a Blüdhaven e logo se encontra com o Reverendo Good, que o leva à nova Fábrica do Mal, onde os soldados de Darkseid estão fazendo experimentos com seres que incorporarão os Novos Deuses a partir de agora. E possível ver que as anomalias temporais trouxeram Kamandi ao presente, já que ele também estava aprisionado ali.

O terceiro ponto relevante, e talvez o segundo maior acontecimento desta edição (o primeiro será visto mais abaixo) é ver o Batman capturado dentro da Fábrica do Mal, sendo crucificado cumprindo as profecias da Bíblia do Crime, que foi criada por Morrison e Greg Rucka. Os experimentos com o Batman têm muita lógica, e serão revelados nas próximas edições. É muito interessante perceber como o Reverendo se refere a Turpin como seu senhor e líder, comprovando que ele é, de fato, o novo Darkseid.

Ao final, Jay Garrik e Wally West estão perseguindo uma pista que o Batman solicitou que Wally procurasse nos computadores da Liga, levando-os ao mesmo bar de strip mostrado na edição anterior. Lá estavam uma cópia da Bíblia do Crime e a Poltrona Mobius, de Metron (ainda não está claro porque Libra a deixou). Wally conta uma teoria (feita pelo Homem-Morcego e que é muito cabível quando se fala de armas divinas) a Jay que diz que bala que matou Órion viajou pelo tempo, matou-o, voltou para 50 anos no passado e foi parar nas docas onde John Stewart a encontrou. O local onde ela perfurou o tempo é exatamente onde eles estão agora, e é dali que virá a maior revelação da revista: ao tocar a poltrona, Jay é lançado para longe e ela começa a emitir vibrações muito conhecidas por ele.

A promessa da sinopse desta revista é cumprida com louvor, tanto pelo autor como pelo artista – a última página é mais significativa em muitos anos de DC Comics, mostrando a volta triunfal de Barry Allen, sendo perseguido pelo Corredor Negro e por uma bala com o vírus Morticoccus dentro dela. O grande mistério temporal surgido na edição anterior e mais cedo nesta edição começa a se revelar aqui: a teoria de Wally, citada no parágrafo anterior, estava correta, e o símbolo máximo da morte no Universo DC está perseguindo Barry para pegá-lo e trazê-lo de volta a um local do qual ele jamais deveria ter saído: o mundo dos mortos. E se o primeiro balão da história foi “Parem!”, o último é “Corram!”, com Morrison fazendo uma nova brincadeira de opostos, como feito na primeira edição.

Vamos analisar o saldo final?

  • Lanternas Verdes da Terra foram desabilitados
  • Batman foi capturado para ser torturado
  • Os Lanternas Alfa se tornaram soldados de Darkseid
  • Os Novos Deuses do mal estão se reencarnando mais e mais na Terra, com os experimentos da Fábrica do Mal
  • Superman está fragilizado e fora de ação pelo que aconteceu a Lois
  • Libra está para por o plano do mal em ação
  • Novos herois surgem do outro lado do mundo, comandados pelo Sr. Milagre (volta do Forever People)
  • Danny Turpin revela-se o grande Darkseid
  • Fica claro que as reencarnações são do mal, não do bem. Magtron, Pai Celestial e tantos outros não reencarnaram, o que dá a dica de Darkseid se preparou para este momento e pode ter obtido, finalmente, a Equação Anti-Vida por completo
  • A volta de Sonny Sumô prova, mais uma vez, que é possível reverter a Sanção Ômega, como aconteceu com Shilo Norman na minissérie Sete Soldados da Vitória

Referências e Anotações:

4-Sonny Sumô, criado por Jack Kirby como citamos acima, possuía um pedaço da Equação Anti-Vida com ele na história original.

10-Painel 5: O tal Superman cinza é o Overman, o Superman Nazista que veremos em breve na série, conforme premeditado aqui por Nix Uotan. Curiosamente, em Homem-Animal, durante a passagem de Morrison lá, havia um personagem semelhante e com o mesmo nome.

11-Observe a combinação do espelho quebrado e a testa de Turpin. Isso lembra alguém? =D

17-Teotóxico é um neologismo sensacional =D. Radio é a única substância à qual os Novos Deuses são vulneráveis, e é claro que Morrison iria usá-lo. Certamente isso faz parte da composição do vírus Morticoccus, provando que a bala realmente matou Órion.

23-Os cães gigantes são uma referência ao exército de animais selvagens de Darkseid

24-”O ar aqui fora está ferrando minha cabeça…”. A cidade ainda deve ter remanescências de Quemo. Aqui fica claro que Turpin é o novo Darkseid, por suas feições. O local em que tudo está acontecendo é o Comando D, visto em Kamandi de Kirby. Ao final da série Batalha por Blüdhaven, publicada pela Panini em Universo DC, mostrou um Comando D sendo encontrado nas ruínas da cidade.

25-Símio e Mokkari foram criados por Jack Kirby, e apareceram pela primeira vez em Superman’s Pal., Jimmy Olsen #135, de 1971, na história original da Fábrica do Mal. O tigre na mesa parece-se muito com os Homens Tigre da revista de Kamandi, mas é confirmado posteriormente como o novo corpo de Kalibak, o filho de Darkseid.

30-Se a edição começa com um “Pare!”, é claro que ela tem que terminar com “Corra!” =D. O retorno de Barry Allen já havia sido profetizado pela passagem de Geoff Johns pelo título do Flash, que dizia que Wally o encontraria nos três piores momentos de sua vida. O primeiro aconteceu anos atrás na mensal escrita por Mark Waid; o segundo em Flash #225; e aqui está o terceiro.

Ufa! Esta edição realmente teve muita acontecendo e muitas referências. Continuem ligados durante toda esta semana no Multiverso DC para conhecerem mais sobre o Corredor Negro, Sonny Sumô, Sol Nascente e a Fábrica do Mal! E mais: nas próximas semanas, o início da publicação do Dossiê Novos Deuses, que vai servir não só para os leitores brasileiros conhecerem mais sobre uma das melhores criações de Jack Kirby como também entender o quanto Morrison bebeu desta fonte para desenvolver esta grande saga.

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