[BR] Resenha (filosófica) da Crise Final nº 1

Finalmente a minissérie Crise Final, de Grant Morrison e J.G. Jones, chegou ao Brasil. A Panini começou a publicação neste mês de julho e aqui no Multiverso DC nós vamos esmiuçá-la aqui com o apoio das anotações de Douglas Wolk.

Homem. Não tenha medo. Eis aqui o conhecimento.” – Metron

Crise Final 1Início e fim. Alfa e Ômega. As escrituras bíblicas já falavam que um dia tudo terá um fim, como é também a natureza da própria vida: o ciclo que forma o milagre da vida é misterioso e místico, científico e impressionante. É com esse clima profético que começa a Crise Final, uma série que não fecha simplesmente toda a trilogia das principais “Crises” da DC, mas sim mostra uma evolução natural no ciclo da vida dos Novos Deuses, considerada por muitos a criação absoluta do rei Jack Kirby.

A releitura de Grant Morrison aos Novos Deuses em escala máxima começa logo nas primeiras páginas, com Metron e sua Poltrona Mobius ensinando o primeiro garoto da Terra, Anthro, o segredo do fogo. O fogo, que virou arma na mão do ser humano, como bem disse Danny Turpin, ao encontrar o corpo de um deus caído no chão em meio ao lixo de Metrópolis. Ter um novo deus morto em pleno planeta Terra é suficiente para atrair a atenção de diversos setores do espaço, como os Lanternas Verdes, mas não é apenas isso que acontece. Brincando com o fato do Multiverso ter uma vida própria, como a Sangria que conhecemos no Universo Wildstorm do Authority e do Planetary. Isso deixa o céu terrestre vermelho – o que também é uma homanegem à Crise nas Infinitas Terras, claro – e prepara todo o terreno para uma chegada dos deuses na Terra.

Prova disso é a reencarnação de Darkseid como o Chefe Lado Negro, bem como seus fiéis escudeiros Kalibak e Kanto, após o deus-vilão ter finalmente obtido o que sempre desejou em toda sua existência no Quarto Mundo: o controle absoluto da Equação Anti-Vida. A Anti-Vida, conceito também criado por Kirby, teve uma releitura de Morrison em Sete Soldados da Vitória, e é tida da seguinte forma:

solidão + alienação + medo + desespero + auto-valor ÷ zombaria ÷ condenação ÷ desentendimento x culpa x vergonha x falha x julgamento N=Y, onde Y=esperança e N=insensatez, amor=mentiras, vida=morte, si mesmo=lado negro

Aplicando tudo isso a cada ser humano de forma massiva, Darkseid procura não apenas reconstruir Apokolips em nosso mundo, mas também ter toda a população como seus súditos e soldados. A relação de Turpin com o Chefe Lado-Negro parece ser conhecida, como se fossem pai e filho, mas depois tudo leva a crer que o plano dele para o veterano detetive é muito maior. Enquanto isso, Libra se revela ser um profeta do mal de Apokolips, um falso poderoso que usa seus poderes de influência para convencer os vilões a estarem todos do seu lado formando a nova Sociedade de Vilões na “cabeça do Darh Vader no pântano”. O curioso é como ele pretende utilizar a Poltrona Mobius de Metron, obtida pelo Dr. Luz e Mestre dos Espelhos a seu mando.

Os heróis da Liga da Justiça também fazem sua aparição aqui, com Batman sendo Bruce Wayne = a história é pós-Batman: Descanse em Paz – e sabem do perigo de ter os Novos Deuses chegando aqui, principalmente porque, como disse John Stewart, nesses “deuses” também existem os mal-intencionados.

A morte de J’onn J’onnz, o Caçador de Marte, também chama a atenção, principalmente por ser extremamente fria e rápida, com Libra querendo mostrar aos seus que os heróis pouco significam para ele. Outro detalhe muito bom é a conexão dos Monitores com o planeta Terra e a humanidade que alguns deles adquiriram, lembrando muito da Krypton idealizada por John Byrne em fins dos anos 1980.

Fechando o ciclo do primeiro capítulo, se no início vimos Anthro, ao final vemos Kamandi, aquele que está no fim de tudo, numa Terra pós-apocalíptica procurando a solução para o mal de seu mundo no início dos tempos.

A premissa desta primeira edição é muito boa, e mesmo com grandes sub-plots inseridos em uma única edição, não é difícil perceber que todos se conectam no único objetivo da tomada do mal absoluto em nosso planeta e a subversão absoluta da obra de Kirby por Morrison, um assumido fã de tudo que o Rei criou. Mesmo que a narrativa pareça rápida demais, com cortes de cena e tempos malucos, a revista é uma leitura prazerosa e que dá trela para muitas teorias a respeito do futuro do Universo DC.

Referências e Anotações:

1-2-3-4-Assim como Prometeu, Metron tem o fogo dos deuses e o dá ao ser humano. Metron tem uma grande ligação com Morrison, autor que alega tê-lo convocado em um ritual de magia. Aqui há também uma ligação do evento com a maxissérie Sete Soldados da Vitória, mais exatamente com o último caítulo, também do escocês. “As tribos celestes trazem estrutura a um mundo selvagem”, é dito na edição, em que se vê neandertais fugindo de Órion, Magtron e Metron há 40000 anos antes de Cristo. Lá, Aurakles, um neandertal guerreiro, se torna o primeiro super-herói da Terra, e uma civilização surge até que o planeta sofre mudanças e sobram apenas pessoas suficientes para que a população volte a se procriar.

Podemos chamar esses eventos de “Catástrofe Sheeda”, que se baseia na teoria da catástrofe Toba, que teria uma super erupção vulcânica na Sumatra, reduzindo à população humana (há cerca de 75000 anos atrás) a meros 10 mil ou até 1 mil pessoas.

4-O sinal que Metron faz com seu dedo é similar ao símbolo astrológico de Marte, o deus da guerra.

7-8=“Se me perguntarem, fogo foi o nosso primeiro erro”, quebra a cena passando a evolução dos tempos mas não uma evolução na natureza belicosa e irracional do ser humano, que ainda utiliza coisas como armas.

9-A morte de Órion deixa óbvio que Morrison ignorou por completo tudo que aconteceu em Morte dos Novos Deuses e Contagem Regressiva.

22-O Chefe Lado Negro é, obviamente, a primeira reencarnação humana de Darkside, o que acontece também com Kalibak, Kanto, Vovó Bondade etc. “Meu pai também dizia isso”, fala Turpin, o que dá a dica de que ele pode personificar Órion, por ter tido contato com ele, já que este é filho de Darkseid.

23-“Houve uma guerra no céu… e eu ganhei.”. Uma óbvia referência ao Senhor Milagre de Sete Soldados, na qual Metron diz “Houve uma guerra no céu. E o lado errado ganhou. O lado Negro ganhou.”

30-31-Anomalias temporais já existem desde a Crise original. Aqui, vemos uma releitura da capa de Kamandi #1, com a estátua da liberdade caida – como no Planeta dos Macacos – e ele se encontra com Anthro, que está desenhando os designs de Metron na areia, além de estar com um cabelo diferente e com arco e flecha. Ah, ele também está cozinhando com fogo. Com isso, Morrison pode ter dado a dica de que, ao ter tido contato com Metron, Anthro adquiriu algumas de suas habilidades, no caso o conhecimento.

31-“Você tem a arma contra os deuses!”. Ela está na cara, não? =D

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