O Lanterna Verde durante os anos – analisando mudanças de mercado e histórias

Esta matéria é uma tradução livre de um artigo publicado no site CBR, na coluna Comics Should Be Good, de autoria de Greg Hatcher.

Na transição da Era de Ouro para a Era de Prata, foi comum as releituras completas de personagens, mudando suas origens, identidades e, em alguns casos, até formas de utilizar seus poderes. Um dos casos mais drásticos desta mudança foi o Lanterna Verde, personagem que está em evidência tanto no Brasil, onde começa a fase da origem de Hal Jordan, e nos EUA, onde começa o mega evento A Noite mais Densa (Blackest Night). Claro que todo e qualquer personagem está sujeito a mudanças no decorrer dos anos, das quais praticamente ninguém escapou, mas as decisões editoriais parecem sempre querem mudar totalmente os conceitos de alguns personagens de tempos em tempos – algo que transformou o Lanterna numa das maiores vítimas destes enganos dos editores.

A história dos Lanternas Verdes, desde 1940 até agora, passou por grandes sagas e quedas de vendas absurdas, causando inclusive cancelamentos. Vamos reanalisar a patente dos Lanternas para a cultura pop e entender tudo isso. Para começar, aí vai a encarnação original do primeiro herói, nos anos 1940.

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A idéia era muito simples: uma versão super-heróica de Aladdin e a lâmpada mágica. A princípio, o personagem inclusive se chamaria Alan Ladd (sério!), mas acabou sendo mudado para Alan Scott, até para evitar confusão com o ator Alan Ladd. De qualquer forma, a história de um vigilante mascarado que usava um anel mágico que fazia suas vontades não tardou a fazer sucesso, e logo Alan Scott ganhou sua própria revista.

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Depois, muitas coisas foram acontecendo, tais como Alan ganhar um sidekick engraçado, Dolby Dickles, e até um cachorro: Streak o Cão Maravilha, que até foi capa da revista mensal em algumas vezes.

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O engraçado de se notar nas histórias dessa época é que Alan, mesmo tendo uma arma poderosa, combatia os criminosos como qualquer cidadão comum, usando o anel de Lanterna apenas para voar e iluminar lugares escuros. A desculpa da época era de que, usando seus poderes para fazer construtos e outros poderes mais fortes, a história acabaria rápido demais. Nunca se viu Alan Scott fazer um construto nessa época.

Sua revista fez sucesso e durou até 1949, além do personagem continuar estrelando a revista All American Comics, onde apareceu pela primeira vez. Sua revitalização, com Hal Jordan, só foi acontecer 10 anos depois.

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Julius Schwartz retirou toda coisa mágica de Aladdin do personagem e começou algo totalmente novo. O único conceito original mantido na nova versão era o nome Lanterna Verde, além, é claro, do anel que respondia aos desejos de seu portador. É curioso notar que este novo Lanterna tinha muito a ver com o personagem Gray Lensman, de Doc Smith.

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O novo Lanterna era o fruto da imaginação científica de Schwartz: o destemido e puro Hal Jordan ganho seu anel de um alienígena moribundo que caiu na Terra com sua nave. Foi aí que se densenvolveu o conceito da Tropa dos Lanternas Verdes, apresentando, aos poucos, outros Lanternas, os Guardiões do universo e tudo mais que conhecemos hoje.

A partir dai era comum ver o personagem se envolvendo com outros membros da Tropa em aventuras na Terra e fora dela. O conceito ganhou os fãs e fez um grande sucesso.

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No fim das contas, as vendas começaram a cair mais uma vez, e com força. Hal Jordan, nesta época, tinha a mesma origem e vida que conhecemos em séries mais recentes, como a Nova Fronteira, de Darwyn Cooke. Com a queda de vendas, o escritor John Broome começou a mudar drasticamente o personagem constantemente, dando-lhe novos empregos e namoradas, mas nada funcionou. Então, Schwartz finalmente decidiu fazer uma total revolução na revista, a começar pela equipe criativa. O Arqueiro Verde foi colocado no título, transformando a revista em um título de equipe, e não mais de um herói solo, com histórias mais focadas em “assuntos da vida real”. Mais uma vez, um personagem passa por uma total revolução.

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Muito já foi escrito sobre o quanto a fase de Denny O’Neil e Neal Adams em Green Lantern/Green Arrow (Lanterna Verde/Arqueiro Verde) significa para os quadrinhos e para a cultura pop. Entretanto, nao é esse o foco – esta história fica pra uma próxima vez.

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Verdade seja dita, tudo que as pessoas disseram sobre a significância do título para o mundo era real, porém, em termos do Lanterna Verde em si, era tudo meio bobo ainda.

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Nas transposições de Denny O’Neil dramatizando o mundo real nas HQs, ele constantemente mostrava um Hal Jordan fraco, cheio de dúvidas e até estúpido. Com isso, o leitor acabava desejando que o personagem passasse por cima de seus medos e utilizasse sua famosa força de vontade.

De qualquer forma, apesar de todas as premiações, nem isso conseguiu salvar Lanterna Verde do cancelamento – a revista terminou na edição #89. Muito mais do que Alan Scott tinha conseguido, é claro. Anos depois, o título seria revivido mais uma vez, ainda com Hal e Oliver QUeen, mas desta vez em histórias com mais foco em ficção científica, conceito fundado por Schwartz-Broome.

Até deu certo, mas assim como ter um Lanterna lidando com assuntos sociais do planeta Terra, era bizarro ter o Arqueiro Verde agindo fora de sua alçada, tornando-o meio “inútil”.

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Depois de alguns anos meio sem direção, foi decidido que o Lanterna Verde seria um título solo mais uma vez.

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A ênfase novamente era em histórias espaciais e a Tropa dos Lanternas Verdes, que teve várias histórias de fundo e às vezes alguns especiais.

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No fim das contas, depois de tantas mudanças, ninguém sabia o que fazer com o título. Várias tentativas foram feitas e nada parecia agradar os leitores. Com isso, foi decidido que tudo deveria voltar ao básico, e Hal ficou exilado no espaço.

Depois voltou para casa…

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Depois foi substituído por John Stewart

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Depois Guy Gardner se tornou o Lanterna reserva de John Stewart…

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Depois Hal Jordan voltou, mas junto a John e Guy, a revista voltou a ter uma equipe…

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E assim foi. A parte boa é que muitas destas histórias eram realmente boas: o run de Len Wein e Dave Gibbons, seguido por Steve Englehart e John Staton, tornou a revista Green Lantern extremamente estável, indo da edição #172 até #224 sem nenhum problema, além dos anuais. Essa fase é a favorita de muitos leitores até hoje. Porém, vale lembrar: o Lanterna nunca escapou de reboots, que aconteceram de forma sutil durante essa fase.

Então a DC decidiu que iria aproveitar o sucesso de Englehart e Staton para continuar a sua mitologia dos Lanternas em sua nova aposta comercial: a revista Action Comics, que tinha se tornado semanal.

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O problema era que Englehart e Staton não queria utilizar esse formato de complemento da revista, fazendo o Lanterna Verde ir para o limbo mais uma vez. Diferentes artistas se aventuraram nesta época (inclusive um ainda desconhecido Neil Gaiman), fazendo mudanças que não deram em nada.

Depois de um hiato de poucos meses e um ou outro especial, o conceito do Lanterna Verde mais uma vez foi apagado, dando espaço a uma minissérie que ficou muito famosa: o Amanhecer Esmeralda, com o aspecto de “Ano Um” que a DC adora fazer.

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Mais uma vez, tudo voltava ao básico: aventuras espaciais e expansão das galáxias com os Lanternas. Depois, a revista mensal veio de novo, fazendo um rodízio de Hal Jordan, Guy Gardner e John Stewart, além do divertido G’Nort.

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E então o sucesso veio novamente, sob a batuta do escritor Gerard Jones.

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Mesmo quando Guy foi chutado da Tropa, ele ainda era popular o suficiente para ganhar sua própria série e continuou como membro da Liga da Justiça Internacional.

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Muitos desses spin-offs eram relançamentos experimentais, mas ainda seguindo a idéia de que os Lanternas Verdes devem estar relacionados ao espaço e aventuras científicas.

Foi aí que veio a controvérsia, a qual todos devem conhecer.

Numa loucura editorial da DC – que até hoje não tem uma explicação lógica – o editor Kevin Dooley foi forçado a decretar que todo o conceito do Lanterna estava datado e deveria ser drasticamente reformulado para uma nova gama de leitores.

O ano era 1994, então todos estavam buscando por uma nova Morte do Superman para ganhar milhões de dólares. A esperança era de criar uma grande tempestade publicitária. Gerard Jones então deu a idéia de que, na 50ª edição da revista, algo chocante aconteceria – chocante o suficiente para chamar a atenção de todos mais uma vez. Chega então o escritor Ron Marz, e a infame Crepúsculo Esmeralda, a história que destruiu a Tropa, matou os Guardiões e deixou Hal Jordan mal.

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Crepúsculo Esmeralda dividiu opiniões, como já era de se esperar. Mas, independente disso, atingiu o objetivo que a DC queria, dando abertura para seguir para um outro caminho mais uma vez, desta vez com o novo Kyle Rayner.

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Ron Marz, nesta época, estava começando e tinha conceitos muitos sérios e muita dedicação com o título, tornando Kyle um personagem carismático e, mesmo que muitos neguem sua importância ainda hoje, as histórias da época tinha muita substância e eram bem heróicas, tendo uma série dos pequenos conceitos que os Lanternas já haviam tido durante todos esses anos.

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Interessante notar que, o escritor que era tido por muitos como “o cara que destruiu Hal”, Marz fez muito sucesso com seu run, escrevendo Lanterna Verde do número #48 até #125, sem contar minisséries e especiais. Porém, a nova direção do escritor teve uma série de efeitos colaterais nos personagens da mitologia dos Lanternas.

Guy Gardner, em particular, sofreu muito com isso, passando pelo inferno na DC, até que sua revista foi cancelada. Além disso, Hal Jordan aparecia de vez em quando como o vilão Parallax, até se sacrificar na terrível saga A Noite Final, sendo transformado futuramente no novo Espectro – uma mudança considerada ainda mais errônea do que quando ele virou vilão. Desnecessário dizer o que foi acontecendo com os outros personagens, como Jade e Alan Scott, seu pai…

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Você já sabe que, quando tudo se perde, a única solução é “voltar ao básico”, correto?

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E assim tudo começou de novo. Os conceitos dos Lanternas Verdes foram reiniciados, reaproveitados e todos os “re” possíveis e imagináveis a partir daqui. E olha que nem foi o pior caso desses: gente como os X-men, os Novos Titãs e até o Hulk sofreram tanto quanto ou até mais com as incoerências editoriais e balanços de mercado que geralmente ocorrem. E isso nos leva a uma pergunta ainda sem resposta: “por que as pessoas tendem e mexer em conceitos que estão definidos e funcionam bem?“. A resposta, nós só podemos imaginar. Mudanças de leitores, tentativas de popularizar a série, e tantos outros motivos…

O que acontece é que leitores de quadrinhos tendem a ter suas leituras como se fossem universos paralelos de suas vidas, e não apenas uma simples leitura em que tudo pode acontecer. Isso força os criadores a se distorcerem para inventar coisas que chamem a atenção. Portanto, é difícil apagar mais de 60 anos de Lanterna Verde e começar tudo do zero – isso explica renascimentos, mortes, e até certas iniciativas como “Um dia a Mais“. E a DC vem se importando muito com isso ultimamente.

Mas isso também leva a outra questão: “por que simplesmente não fazer a nova versão ao invés de ficar se matando para fazer o que os leitores querem?”. Histórias extra-cronologia têm se mostrado um grande sucesso, tais como Grandes Astros Superman, o universo Ultimate da Marvel, e tantas outras idéias bacanas.

No fim, sendo no Lanterna Verde ou não, só há uma coisa que nos mantêm lendo quadrinhos: são as boas histórias, e não importa como elas venham.

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